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Duas horas, cinquenta e dois minutos.

  • Foto do escritor: Luik Leão
    Luik Leão
  • 28 de mar. de 2019
  • 6 min de leitura

Atualizado: 6 de jul. de 2019


Duas horas, cinquenta e dois minutos, quarenta e três segundos, quarenta e quatro, quarenta e cinco… Cássio está no banheiro vomitando, Paulo está na sala jogando vídeo-game, eu estou na piscina, Marina está na piscina, estou nú, Marina está nua, meu coração acelera conforme sua aproximação, não sei se minhas mãos soam de baixo d’água, mas posso te jurar que sim, ela chega mais perto, toca meu… Rosto, ela sorri, eu sorri nervoso, Paulo sorri, Cássio vomita.


Ah! Sexta-feira à tarde que dia meus amigos, que dia adorável! Paulo e eu estávamos preparando uma festa na casa do Cássio, a Marina estaria lá. Ah, a Mari! Um metro e sessenta e sete centímetros, cinquenta e um quilos e trezentos e vinte e três gramas, cabelos samambaia com doze mil trezentos e sessenta e seis fios, aproximadamente, sobrancelhas simetricamente perfeitas, olho esquerdo levemente apontado para a direita, nariz gorduchinho com orifícios de dois virgula quatro centímetros, e um sorriso de cigana oblíqua e dissimulada.  —  Peraê, acho que alguém já fez uma descrição assim - Enfim, Marina era uma garota de meu colégio, ela era perfeita e gostava de absolutamente tudo que eu gostava, por exemplo, música, água e pizza, Marina era para este que vós escrevei o que Luiza Brunet era aos olhos dos outros garotos naquele mês. Paulo e Cássio estavam dispostos a fazer uma aproximação entre eu e meu sonho de consumo e isso ia acontecer nesta sexta-feira, mais precisamente na festa.


Meus garotos fizeram uma pesquisa de campo identificando todos os gostos da jovem, além dos já citados por mim.


- Black Sabbath, Dio e Modelo Cru. Disse Cássio, identificando as bandas favoritas da moça.


Minha quest era se deslocar até a as longínquas terras de um lugar vulgarmente conhecido como “A GALERIA” para encontrar fitas K7, se é você mais novo deve reconhece-las por Guardiões da Galáxia. Depois de uma aventura incrível pegando quatro ônibus diferentes cheguei a terra prometida.


Ao adentrar o local misterioso observava criaturas diferentes, mas que lembravam poucos detalhes das vestimentas de Marina. Humanoides, jaquetas jeans, vale ressaltar aqui sua aparência e odor pouco agradáveis, cintos cheios de metais, creio que essa espécie deve se chamar Metaleira. Entrei na primeira loja do lugar, queria sair o quanto antes dali, pois ouvia um som agressivo que ficava insistentemente dizendo os números do coisa ruim, perguntei ao atendente sobre as três bandas citadas por Cássio, ele teve a audácia de rir de minha face, mas depois disso foi muito solicito, disse para ir a um lugar no fim do corredor onde haveria uma porta.


Segui o conselho do rapaz e fui caminhando pelo corredor, acredito fielmente na possibilidade de este ser o maior corredor que já percorri na vida, era tão grande quanto do filme O iluminado, mas o cara estava certo, ao fim deste havia uma porta, era de madeira, podia ler um letreiro com os dizeres “COMPRE ALGO OU VÁ EMBORA!”, isso que é mensagem clara, é igual propaganda da batom, rápida e objetiva. Me aproximei da loja e antes de tocar a porta, ela se abriu, e de trás de toda a fumaça com odor de ervas jamaicanas surge um cidadão de nome Rodrigo, com uma barba longa, cabelos lisos e femininos, olhos vermelhos, ele tinha cara de mal, ficou me encarando por 42 segundos seguidos, até que tomei coragem e o indaguei.


- Tem Black Sabbath?

- Veio no lugar certo, criança. Com um sorriso no rosto, respondeu Rodrigo.


Depois de ouvir por meia hora ele me descrevendo a magia de um elfo de 1,63m nos vocais da banda, finalmente consegui as fitas k7 para animar a festa. Quando já me retirava do ambiente pouco ortodoxo, Rodrigo gritou meu nome, apesar de assustado voltei a frente do balcão, é então que ele tira um pacote prateado de dentro de sua jaqueta, parecia o Travolta olhando a mala em Pulp Fiction.


- Isso é pra você fazer um chá, sua namorada vai gostar. Disse Rodrigo.


A epopeia que me levou para casa foi tão conturbada quanto a de saída, cheguei em casa com fome, tonto e com o cheiro de um jardim que minha mãe não gostaria de cheirar, Cássio estava me esperando, entreguei a ele as ervas naturais de Rodrigo e as fitas K7, estava ficando ansioso para a festa. Cássio então me olhou seu sorriso era entre algo entre feliz e preocupado.


- Onde você conseguiu isso?

- O cara das fitas me deu de presente.

- Vai ser a melhor festa de todas!


Não entendi muito bem a afirmação do meu fiel escudeiro, até as vinte uma horas e trinta e cinco minutos e dezessete segundos, mas vamos chegar lá. Paulo chegou uns cinco minutos depois com latas de cerveja, fiquei me perguntando como ele conseguirá comprar bebidas alcoólicas sendo menor de idade, lembrei, estamos no Brasil dos anos 80, as leis não era iguais, até a física funciona de maneira diferente. Juntamos nossas mercadorias e fomos todos ajeitar os preparativos para a noite mais importante da minha vida.


Já passava das sete quando começaram a chegar, nem tudo estava pronto, mas eu estava, só faltava Marina, seu um metro e sessenta e sete centímetros, melhor metro da redondeza, rapaz. Conforme as pessoas iam chegando, Cássio ia bebendo, provavelmente ele bebia uma lata para cada convidado. Não posso te dizer quanta gente tinha, mas certamente não era uma festa pequena.

Quando o relógio marcou nove da noite ela chegou, em câmera lenta, parecia um filme do Zack Snyder, ou um clipe de ostentação. Voltando ao que importa. Sim, ela, a minha musa do verão, e ela estava vindo na minha direção, uma única gota de suor ousou atravessar a BR 101 que levava da minha nuca ao cóccix, afinal, a garota mais espetacular do humilde bairro do ratão banhado vinha na minha direção, minhas pernas ficaram bambas, na minha cabeça eu começava a trocar o R pelo L, e então ela vinha, e chegava mais pelto, perto, ela foi chegando, foi chegando e passou direto. Como assim ela passou direto? Ela deveria vir e falar comigo, mas não, ela foi conversar com Tite, não gosto desse cara, vive de óculos e rouba a atenção de todas as garotas por ser mais velho, cara babaca.


Vinte uma horas, trinta e cinco minutos, a festa era realmente a melhor festa de todas, o chá de Rodrigo fez as pessoas acharem que aquilo era Woodstock, o sentimento de paz e amor livre reinavam no local… Olha lá, duas garotas se pegando. Olha aquele cara correndo nú… Peraê, aquele cara é o Paulo! Ah, foda-se, não vou tentar entender, pois a piscina estava maravilhosa, só haviam garotas nelas e alguns poucos rapazes, tinha gente jogando vídeo-game, tinha gente de biquíni, tinha de tudo. Já que fui ignorado por Marina, passei a utilizar todas as táticas possíveis para chamar a atenção dela, já tinha colocado algumas poucas gotas álcool na boca, mas fingi que estava sob efeito do mesmo, fazia piadas, falava sobre videogames, falei de Asteroids, Pac-man, Berzerk, Pitfall, depois cantei Queen e Led Zeppelin, embora meu sentimento ali fosse de Joy Division, fingia estar feliz, e isso deu resultado, pois ela me notou e resolveu vir até mim, ela segurava um cigarro artesanal, cheirava como um cinzeiro, suas palavras vinham acompanhadas de um aroma de whisky.


- Toma, vai te deixar ainda mais legal.


Aceitei a proposta dela, não senti nada, ela saiu deu um sorriso meio canto de boca, aquele sorriso lua minguante, então, esse. Logo depois Cássio veio correndo em minha direção.


- Cara, cê não pode usar aquilo.

- Por que?

- Vai te deixar lerdo, babando por ai. Imagine, na noite em que ela finalmente te dá uma chance, você tá ai babando, lerdo, tonto…

- Ok, já entendi a questão. Significa que eu si fudi né?

- Basicamente.


Rapidamente corri para piscina, sei lá porque, só queria evitar que Marina me visse babando e pagando mico por ai.


[UMA HORA DEPOIS]


Duas holas da manhã, eu já peldendo as espelanças de que a cena inicial lealmente acontecesse. Mas, glaças a alguém, não sei quem, mas obligado cala, todos começalam a sair da piscina, só ficamos nos dois. Duas holas, cinquenta e dois minutos, olhei pla ela e solli, ela olhou pla mim e solliu. Paulo foi jogar Pitfall, Cássio colleu pala o banheilo, não sei se é possível suar debaixo d’água, mas juro que estou suando, mergulho na água para ir em direção a ela, percebo que ela está sem roupas, me lembro que pulei na piscina sem roupas e isso deve ter afastado as pessoas comuns do local, pessoas comuns, não ela, pois ela também pulou na piscina desnuda, não estou mais falando enrolado, paro de me aproximar, Marina percebe e decide vir em minha direção, nós dois nos olhamos. Duas horas, cinquenta e dois minutos e cinquenta e três segundos, percebi que as afirmações da Cássio a respeito do cigarro artesanal eram falsas. Ela me beija.

...

Este texto foi criado com a proposta do podcast “Gente que Escreve” de fazer um texto que utilizasse Pitfall, Piscina e Heavy Metal nos Anos 80.

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