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Coming of Age - Capítulo 1.

  • Foto do escritor: Luik Leão
    Luik Leão
  • 6 de jul. de 2019
  • 7 min de leitura

Era mais ou menos nove e meia da noite de um dia quente para caralho, eu e Thays desenrolávamos lamentos sobre como a vida estava uma grande bosta até que numa parte de nossa conversa sobre o que faríamos para melhorar decidimos unir forças, no caso desanimo, e fazer uma viagem, o destino seria Florianópolis – SC.


Após alguns meses poupando minhas economias, resolvemos que era a hora de fazer tal viagem, fomos de ônibus voador, não, não era um avião, era um ônibus, que o piloto travava uma disputa contra um jato pra ver quem chegava primeiro.


Ônibus de viagem é aquilo, tem o cara comendo o salgadinho fedorento, com o dedo amarelo e derrubando farelo no seu ombro, tem gente roncando, um casal que não cala a boca, no meu caso, o senhor de idade comendo farofa com frango e maionese a cada parada, mas minha amiga e eu éramos completamente avessos ao fato de socializar com qualquer tipo de criatura humanoide presente naquele recinto, tratamos de nos munir de fones de ouvido, na minha orelha trompetava The Sky is Crying – Gary B.B. Coleman, não combinava nada com a pressa do piloto, mas sempre combinei comigo mesmo que se é pra bater as botas, que seja ao som de Blues. Eu quase conseguia ouvir que do ouvido de Thays vazava um Misirlou do Dick Dale, era isso ou Black Eyed Peas, prefiro fingir que era a primeira opção, evitando assim o constrangimento da minha parceira de viagem e talvez de morte.


Enquanto o busão quase retirava suas oito rodas de cima do asfalto, eu fazia planos e promessas pra caso sobrevivesse aquele trajeto entre São Paulo e Santa Catarina, rezava para todos os deuses e anjos como um pagão, pra qualquer um que pudesse me fazer chegar vivo pra aproveitar minhas tão sonhadas férias, dizia que nunca mais ia viajar de ônibus, mesmo sabendo que trabalho a duas horas de transporte público da minha casa, mesmo sabendo que passagem de volta já estava comprava, falava que daquele dia em diante uma vida devassa não passaria mais por mim, nos fins de semana ia visitar a igreja, cortaria meu cabelo careca e faria meditação todos os dias. Neste momento ainda tô em dívida sobre a maioria dos casos acima, porém acordo as cinco pra meditar, já é um começo.


No primeiro dia estávamos incrivelmente cansados, fomos direto para o hotel, liguei para minha mãe e Thays para seu namorado. Após a ligação não me lembro bem sobre o que conversamos, mas no final estávamos assistindo TV deitados numa cama, sim era uma só porque quarto com duas é caro pra caralho.


No dia seguinte fomos a uma casa show, brincávamos que um dia usaríamos a mesma tática de um cara que vimos na televisão na noite passada que havia entrado numa festa dizendo ser membro do Engenheiros do Hawaii.


- Velho, precisamos tentar fazer aquilo do filme de ontem. Imagina que foda, entrar na casa de show, sem pagar, ser vip, cantar com a banda.


- É super foda ser pego, expulso e apanhar dos seguranças.


- Sei não, sem contar que ninguém ia te bater, cê é mulher.


- Pra mim tá de boa então, cê apanha pelos dois.


Apesar da preocupação de Thays, logo que chegamos lá decidimos testar a eficácia do plano ninja do cara da tv, o único problema para minha preocupação é que o segurança era parrudão, estilo The Rock, saca? Segurança tinha músculo até na dobra do pescoço.

Dizíamos que éramos de uma banda chamada Anencéfalos.


- Não brother, anencéfalos... Acéfalos é outra banda.


O segurança achou estranho, mas insistimos – Tocamos na abertura do Violator lá em São Paulo e do De La Tierra também. – Disse Thays enquanto fazia um touchscreen no quadriceps de The Rock – Apesar de continuar desconfiado ele permitiu nossas entradas no recinto.


Comemorávamos, bebíamos, comíamos, ali mesmo com o pessoal das outras bandas e com os fãs nos pagando cerveja, na verdade pagando pra minha amiga, primeiro que eu nem bebo e segundo que ela faria sucesso com aquele coturno preto e maquiagem da Janis Joplin.


Após uns quarenta minutos o primeiro show havia se encerrado, esperávamos pela segunda banda, era só alegria, aquela relaxada maravilhosa, estilo Keith Richards. E então vi um dos produtores do show conversando com o segurança, e olhando pra gente, deu ruim jovem, olhei pra Thays que olhou pra mim de volta, muito preocupada, o produtor se vira vem andando na nossa direção. Fudeu!


- Olha ai, Papai noel vem vindo – Disse um dos caras que estava com a gente.


- Papai Noel, como assim “Papai Noel”? – Perguntou Thays


- Papai Noel sempre vem fazer nevar. – Explicou o cidadão com um sorriso maior que de uma criança ao receber brinquedos no natal.


Nevar? Nevar é o caralho rapaz! Um dos produtores chega até nós, a essa hora já esperávamos ser expulsos dali.


- Caras, vocês vieram numa noite ótima, o TEST parece que não vai poder tocar. O barata machucou o pé, um show de horror, sobrou pra vocês.


Obviamente que fui treinando pela academia Karate Kid de saídas rápidas prontamente trarei de responder.


- Mas estamos sem o resto da banda e não trouxemos nenhum instrumento.


O produtor do show pede pra ligarmos para os outros membros da banda virem para o show e trazerem os instrumentos, explico a ele que estamos só Thays e eu na viagem, que não planejávamos num show, ele insiste dizendo que poderíamos tocar com os instrumentos da casa.


- Não da, viemos só eu e Thays pra viagem, não planejamos nada, só relaxar, beber, dormir, torrar no sol, pés descalços na praia e os carai.


Mesmo com a insistência do produtor, até que estávamos fugindo bem. Infelizmente um dos caras das outras bandas que estava ali decidiu se oferecer para mandar um som. Sozinho? Não, com a gente, óbvio que tinha que sobrar para os dois.


Senti uns calafrios que vinham do cóccix até a moleira, minhas pernas colaboravam tocando a sinfonia do medo enquanto meu cérebro dizia – SE FODEU!


Porém visando manter o disfarce, já que naquele momento possivelmente seriamos não apenas expulsos, mas apanharíamos do produtor, dos seguranças, do The Rock e do cidadão da outra banda, e do cidadão da outra banda, achei conveniente aceitar o desafio de mandar alguns covers.


Mesmo assim tentei me livrar sugeri músicas que possível ninguém saberia tocar como TV II e N.W.O, ambas da banda Ministry, por incrível que pudesse parecer sabiam tocar N.W.O, e estava decidido a partir de já que aquela seria a primeira música a ser tocada.

Após descobrir que não tinha como escapar de subir ao palco naquele dia logo liguei o foda-se e disse cantaria Walk – Pantera, Territory – Sepultura, Detonar – De La Tierra, Going to Brazil - Motorhead, Eletric Head – White Zombie, detalhe importante sobre essa música é que eu não tinha a menor ideia de que realmente sabia canta-la, The Hunt – New Model Army e finalizaríamos com a única música de verdade do Slipknot, Disasterpiece.


Nos instantes que eu esquecia que não cantava porra nenhuma, que o disfarce cairia, seriamos expulsos, vaiados e apanharíamos de The Rock, dava um certo orgulho rockstar, que era substituído por um incrível cagaço de subir no palco, perder o disfarce, ser expulso, vaiado e apanhar de The Rock.


Pouco antes de subir no palco olhei para Thays e telepaticamente ela mandou uma mensagem de tristeza e de profundo sentimento de que ia dar merda. Eu que era um grande apreciador de refrigerante achei que seria o momento apropriado para esquecer meu posicionamento a respeito do álcool, dei um puta dum gole de coragem liquida e com meus 64 kg subi ao palco), a merda já estava feita porém ao ver que na plateia haviam cerca de 30 cidadãos com braços que certamente pesavam mais do que eu, a marcha fúnebre tocava em minha cabeça. Era tipo uma roda de The Rock's e Jason Momoa's.


Dou novamente uma olhada para Thays e ela olha com cara de que se sobrevivêssemos ao show eu não sobreviveria a manhã seguinte, porque certamente ela me mataria enquanto eu dormia... Ou possivelmente me acordaria apenas pela satisfação de matar e me ver sentindo dor.

Apesar do foda-se ligado no onze, o primeiro riff da guitarra do brother da outra banda aumentou agressivamente meu cagaço de cantar. Filhos da puta tinham até um backing vocal pra todos os gritos de fundo da primeira música.


Para minha incrível alegria e deleite o público já havia consumido tantas substâncias licitas e ilícitas que se a Xuxa estivesse em cima do palco cantando ao contrário seria provavelmente o show mais foda da vida daqueles pobres frequentadores daquela casa de show. – Se bem que seria incrível ver o Xôu da Xuxa ao contrário – Ou seja, ao fim de N.W.O. tinha gente pra caramba aplaudindo, não sei se por pena ou por realmente ter gostado, e a roda de bate-cabeça já dava seus primeiros passos, tinha cerveja voando, gente feliz, gente zoando, resumindo, Nice!


Com o termino do set list todos estavam convencidos que aquela banda em cima do palco era de fato a Anencéfalos, banda fictícia criada precisamente às 22 horas e 40 minutos da noite do dia 15 de março de 2013 para conseguirmos acesso a backstage e vip de um bar qualquer.


Tentando não bater de frente com o azar Thays e eu decidimos que seria uma boa ir embora daquele lugar, chegamos ao hotel aproximadamente as 4:40 a.m. e desabamos na cama. Todo o medo havia sido substituído por uma sensação estranha e prazerosa que nos mantinha acordados olhando um pro outro e rindo do que havia acontecido, na troca de olhares, Thays leu minha mente e eu li dela, saca uma conexão por outro plano astral? Tipo Ghost, tinha até a música tocando na minha cabeça.


Devia tá muito louco de solução etílica, mas rolou meio que uma visão de um futuro maluco, nós dois num palco, como se os dois tivessem encontrado a solução pra nossas vidas. Creio que naquele momento ambos percebemos porque nos sentíamos tão cansados, é porque somos corpos e subconsciente nos diziam o que deveríamos fazer.

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