Crítica - Distúrbio (Unsane).
- Luik Leão

- 27 de mar. de 2019
- 3 min de leitura

Steven Soderbergh é um diretor que dispensa comentários, sua filmografia ostenta longas como Onze Homens e Um Segredo, Sexo, Mentiras e Videotape, Contágio e o filme que lhe rendeu o Oscar, Traffic. Outro atributo do cineasta é a sua capacidade de experimentação. Quando anos atrás Sonderberg anunciou sua aposentadoria, muitos duvidaram por conta de sua inquietude. O cineasta dirige, faz a cinematografia, edita, e executa qualquer função no set, onde precisar, ele está. Depois de ter retornado as produções com Logan Lucky, ele agora decide tentar dirigir um Terror e gravado com a câmera de um celular.
Na trama de Unsane somos apresentados a Sawyer Valentine (Claire Foy), que muda de cidade para escapar de um stalker (ou perseguidor em bom português), Sawyer começa a trabalhar em um banco e além de aguentar os clientes chatos, ainda lida com os abusos de seu chefe. Depois de uma consulta ao psicólogo ela é internada em um sanatório e lá surge a dúvida se ela está ou não presa com seu perseguidor.
A escolha de se utilizar um iPhone como meio de gravação é mais uma de suas experiências na sétima arte, dotado de muita técnica e conhecimento cinematográfico, a carreira consistente do diretor é capaz de entregar mais que os “míseros” 100 mil dólares utilizados nesse projeto.
Visualmente a mudança é notória, o desfoque e enquadramentos mais fechados são postos de lado, invés disso temos uma atenção maior as composições visuais, cores e o desenho de luz. Embora a gravação deixe um aspecto meio amador por conta da câmera, ainda temos um boa fotografia. A distorção causada pelas lentes do dispositivo contribuem para a sensação de paranoia da protagonista e embora o longa tenha um renomado guia atrás das lentes, parece dirigido por um iniciante cheio de vigor.
As atuações do filme são boas, Claire Foy se esforça bastante para transmitir todas as camadas de sua personagem, a loucura e indignação da protagonista é convincente, e a quando necessita demonstrar imposição, por mais que o espectador precise de uma dose de engajamento, ela até se sai bem.
Joshua Leonard é um maníaco de voz leve, e ele está muito bem no papel, existe serenidade no personagem ao conversar com Sawyer, é plenamente plausível vê-lo como alguém que está apaixonado, entretanto a forma como é mostrada em cena convence ao transformá-lo em uma uma figura perturbadora, e quando David perde o controle, ele é capaz de te assustar ainda mais.
Juno Temple ao lado de Jay Pharoah se destacam no elenco de apoio, enquanto a atriz entrega uma personagem mentalmente instável e afim de briga, Jay é o refúgio de Sawyer ao ser ponderado, é quem tenta manter a protagonista motivada e sã.
Amy Irving por outro lado, não está ruim, o texto não contribui muito para que a atriz desempenha um resultado melhor, mas existe a ausência de desespero, as cenas e os diálogos dão a entender que ela está sim preocupada com sua filha, mas a atriz não deixa isso evidente em sua performance.
A direção de arte faz um bom trabalho ao não deixar o ambiente se parecer genérico, mesmo que seja tentador deixar as personagens em quartos brancos com uniformes muito parecidos, o filme adota uma identidade própria. Embora visualmente seja eficiente, nem sempre temos a sensação de um sanatório, parece que estamos em uma casa de repouso.
O trabalho de edição é bom, mas a escolha estética de se utilizar um celular como aparato de filmagem deixa a impressão de que uma edição mais ágil fosse uma opção melhor, neste caso somos apresentados a planos mais longos com tempo do espectador observar e compreender cada espaço da composição visual.
A primeira vista, Unsane deixa a sensação de ser metódico demais e ausente de um algo a mais que o faça se sobressair, mas se observarmos a carreira do realizador, e o que houve recentemente a ele, ao retornar de uma aposentadoria, vemos que Sonderberg quis mostrar que para se fazer um filme não precisa de muito. O longa optar por fazer a Noite Americana, técnica que poderia ser dispensada com um orçamento maior, que alguém com seu histórico não seria difícil de se conseguir, se utiliza de um iPhone 7 quando poderia ter uma Arri Alexa, uma Panavision ou até mesmo uma RED. Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça é isso, fazer seus filmes com iPhone, ter pouco dinheiro, mas uma boa ideia de como se fazer.
Unsane pode não ser cheio de novidades e nem assustador como um horror raiz, mas é um filme com um propósito.



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