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Crítica | Atentado ao Hotel Taj Mahal.

  • Foto do escritor: Luik Leão
    Luik Leão
  • 11 de jul. de 2019
  • 3 min de leitura

No Hotel Taj Mahal, os hóspedes são como deuses.


Essa frase é o que resume o pensamento e as atitudes heroicas dos funcionários do hotel mais luxuoso de Mumbai, o Taj Mahal.


Em Novembro de 2008, um grupo de terroristas aproveitou os problemas estruturais de segurança do maior polo econômico da índia para realizar ataques coordenados em grande escala em ao menos seis diferentes pontos da cidade. Os acontecimentos do longa focam nas ações ocorridas no principal hotel de Mumbai, e em como seus funcionários deram suas vidas para proteger e salvar seus hóspedes.


O primeiro aspecto a ser notado dentro da obra é a maneira crua e impiedosa como o diretor trata os terroristas, os homens maus do filme são cruéis e frios. Cada disparo efetuado é uma vida que se perde, construindo uma crescente apreensão ao clima do longa. O primeiro ataque registrado no filme, numa estação de trem, dá o tom de como será o caos dos eventos apresentados, a ausência de remorso cria um vilão imprevisível e cruel para a obra, e a maneira como novos ataques ocorrem, tornam essa construção ainda melhor executada.


O segundo aspecto de maior ressalto da película está em Arjun interpretado por Dev Patel, seu personagem é o exemplo de uma visão otimista e heroica do mundo, é sobre como a aceitação de algumas situações podem se virar a nosso favor. Ao invés do clássico personagem escrito por Kevin Smith em O Balconista, que diante dos infortúnios de seu dia se queixa que não deveria estar ali. Arjun usa as vitórias e derrotas de seu dia como uma maneira de lutar pelas vidas das pessoas que ali estão com ele. Dentro das inúmeras cenas de destaque do ator, a melhor está na maneira como ele lida com o preconceito de uma mulher com seu turbante, uma atitude que resume a maneira como seu personagem é um símbolo de esperança maior que qualquer herói de quadrinhos.


No âmbito técnico, o diretor e roteirista estreante Anthony Maras conduz a obra fazendo um trabalho consistente na criação de pânico e tensão, além de desenvolver bons personagens capazes de conduzir a trama ao longo de seus 120 minutos. Até mesmo os terroristas que à primeira vista são retratados de modo unilateral, vão ganhando espaço para serem melhor desenvolvidos e compreendidos. Maras consegue levar não apenas sentimentos como medo e claustrofobia, mas eleva a qualidade da obra ao inserir compaixão.


A maneira como texto e elenco conduzem o filme, acentuam a conexão entre público e a obra, se no primeiro ato os personagens se mostram estereótipos comuns em obras de suspense e catástrofe, seus desenvolvimentos não fogem do óbvio, mas é impossível não se importar com todos eles, seja com o empresário boca suja, ou com os pais preocupados com seus filhos. O elenco principal é grande, mas com ótimas atuações, novamente o destaque fica a cargo de Dev Patel, mas sobram espaços para Nazanin Boniadi, Armie Hammer e Anupam Kher, todos têm ao menos uma cena de destaque e conseguem entregar ótimos resultados.


A direção de fotografia dá conta de retratar a mistura de luxo e pânico que reside no hotel, o tom amarelado da obra ajuda a retratar tanto o calor da cidade, como o ouro presente no hotel, o luxo é um ponto importante da obra. Já os enquadramentos fechados ajudam muito ao transformar um ambiente enorme em um local muito menor que a realidade, aumentando a tensão e urgência das ações tomadas pelos hóspedes e funcionários. É como se atrás de cada porta tivesse um homem armado pronto para tirar sua vida.


O design sonoro é muito bom, os tiros que ecoam pela cidade passam longe de repetitivos, o choro do bebê recém nascido é capaz de contribuir para uma das cenas mais inquietantes da obra, mesmo que se espere um desfecho comum, sua sequência gera uma outra cena tão tensa e tão perturbadora quanto.


É muito delicado falar sobre a maneira como os funcionários dão suas vidas para salvar seus hóspedes, a mesma medida que pode ser vista como heroica, bondosa ou nobre, revela também um aspecto cruel de uma sociedade desigual em que servos devem dar suas vidas ao seus patrões. Mesmo que as atitudes dos funcionários do Hotel Taj Mahal sejam um símbolo de fé na humanidade, a visão daquele que entrega sua vida para salvar a de outra pessoa completamente desconhecida, infelizmente ainda reside a sensação de que pessoas ricas merecem mais.


Apesar de alguns personagens serem um pouco estereótipos, suas jornadas de superação e amadurecimento valem a pena ser vistas sob o olhar do diretor estreante, a esperança na humanidade e o peso psicológico impostos pelo diretor rendem uma história emocionante e tensa.

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