Crítica | A Democracia em Vertigem.
- Luik Leão

- 26 de jun. de 2019
- 4 min de leitura

Os dias hoje são incertos, as vezes é melhor se omitir, e observar com distância a todo tsunami de notícias políticas que nos atingem diariamente. O que parece nos ocorrer é a sensação de afogamento em meio a ondas cada vez maiores de acusações e incertezas. Sinto muito te dizer meu caro leitor, se você não está confuso, você não está bem informado. Se você tem um lado claramente definido, talvez também não esteja, a grande certeza que se tem hoje em dia é que algo está errado, não sabemos exatamente o que, ou quem, mas temos a sensação de que nada está avançando e nenhum fato novo nos leva ao futuro, é como se estivéssemos na barriga do roteiro, aquele trecho que o produtor achou que seria relevante para a história do longa, mas que serviu apenas para o público se perder do restante da trama.
Se hoje estamos confusos com o emaranhado de casos e causos do cenário atual, Petra Costa (Elena, 2012) usa seu documentário para nos mostrar de onde viemos até chegarmos no local onde estamos.
Há alguns anos quando o processo de Impeachment da ex-presidente Dilma Rouseff teve início, os boatos sobre a criação de documentário analisando o período começaram quase que simultaneamente, bem por isso A Democracia em Vertigem é visto como a obra que contará os bastidores do conturbado momento político do país. Porém, de maneira muito mais abrangente e pessoal, a direção muda o foco para contar uma trama de “perseguição e espetáculo” contra outro ex-presidente.
Luiz Inácio da Silva é quem abre e quem finaliza a obra, colocando-o como uma espécie de protagonista do processo, quase que eximindo os erros de Dilma em seu mandato. A princípio pode parecer que a ideia não funciona, mas Petra trata a trama de uma maneira pessoal e intima sobre os acontecimentos que vivemos neste exato momento, a história do longa ainda ocorre, como nas mais belas obras de uma crônica ou um conto, sobre um pequeno período, que não começa e nem mesmo termina com Lula, algo que continuará por muito tempo, até que tenhamos a convicção do que era “real” e o que era “ficção”.
Abordando de maneira mais voltada ao lado da que hoje seria considerada oposição, a obra é consciente de sua parcialidade, mas se justifica trazendo a história de sua realizadora como olhos e enredo de uma trama muito maior e ausente do controle de seus personagens. Petra conta a história de sua família, sua conexão com a militância, suas influência e sua admiração pelo personagem central, a vida da documentarista é o fio condutor da obra, ao mesmo tem que serve para lembrar o espectador de que a visão apresentadas dos fatos, são do ponto de seu ponto de vista.
Ao abordar a crescente demanda por um salvador de uma nação, o filme mostra os perigos do que hoje já é quase consenso de ter sido um golpe, golpe que não parece ser cessado diante de um novo governo. O atual presidente vive diariamente incertezas suficientes se passará ou não pelo mesmo processo que depôs sua antecessora eleita, é como se o impeachment tenha se tornado uma bala de prata, ou um fantasma para aqueles que não conseguem agradar a maioria dos engravatados da câmara.
Tangenciando possíveis polêmicas a respeito da abordagem claramente voltada a um certo espectro político, se observamos a obra como um filme, é cinematograficamente excelente, A Democracia em Vertigem é ótimo, toma pra si de maneira pessoal a narrativa de uma crescente segregação populacional.
A primeira hora de filme é ágil, se divide entre um primeiro ato que trata da escalada do ex-presidente Luiz Inácio da Silva e a passagem de faixa para Dilma Rouseff. O segundo ato traz o julgamento do impeachment, o fato se transforma no centro das atenções, entretanto ao mesmo tempo o longa começa a mostrar as Jornadas de Junho e o início de uma separação mais brutal entre diferentes espectros politicos. Ainda sobra tempo para mostrar a ascensão da procura por um salvador.
Petra consegue também dar um pouco de carísma e humanidade para a ex-presidente impichada, faz o mesmo com Lula, mas para contrapôr o lado já conhecido pela audiência, ele é mostrado mais tenso e preocupado. Além de dar personalidade a seus protagonistas, a cineasta consegue passar a sensação de acuamento ao ser expulsa de uma manifestação, e a correria dos bastidores do processo de afastamento de Dilma, e a prisão de Lula.
O visual do longa é lindo, a cinematografia transita bem entre distintos tipos de coloração, o tom antigo e granulado de arquivos e da família de Petra, passando por uma forte saturação para ressaltar o vermelho, verde e o amarelo. Existem momentos de contemplação que mostraram a separação entre apoiadores e opositores do afastamento e prisão, mas sobram momentos para observação de paisagens, como se mesmo diante de conflitos, existe uma calmaria. Se a cinematografia se destaca, o mesmo deve ser dito das escolhas musicais da obra, que compõe e seguram o ritmo da produção, principalmente no ato mais longo do filme.
Petra Costa conta a história com a mesma intimidade e beleza que fizera em Elena, o interessante é que em ambos os filmes, a trama pesada consegue se tornar mais de digerir no olhar da cineasta, até mesmo quem discorda do posicionamento da diretora, vê no mínimo um bom trabalho de realização.
A Democracia em Vertigem não é só sobre o Impeachment de 2016, mas sobre a ascensão de um dos principais politicos do país e a sua queda. Concorde ou não com a visão de Costa, a obra ao menos é relevante para entender o pensamento de quem compartilha o posicionamento visão que ela.



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